quarta-feira, 10 de junho de 2009

Feliz dia dos Namorados (Delicatese)

Delicatese
A dor permanecia e a consumia como um verme. Tudo ruíra em um girar de liquidificador. Tantos planos, tantos panos cobrindo o olhar. Ele assim. Ela assada; nariz e olhos.
No dia seguinte, foi ao shopping trocar o presente, por um para si. Entrou na loja e como em um flash retroativo, se viu ali, no mesmo lugar, onde uma festa íntima fora sonhada.
Sentiu medo do tempo; voltar a um mundo conhecido, sem reconhecê-lo. Aprender a engatinhar depois que se anda, não é fácil. Justo neste dia? Tinha vontade de mandar a vendedora à merda. Duas horas para escolher o produto e dar no que deu. Se não fosse por ela, nada disso teria acontecido.
Sabia como ele era. Sabia do que ele gostava, estavam juntos há dois anos. Porque não se ouviu? Agora, o mico.Tinha que escolher outra cor, outro modelo, nem sequer sabia exatamente o que fazer. Droga. Não era fácil entrar em uma loja de lingeries e escolher algo. Quando era para si, sabia bem o que queria, chegava e pronto:- quero esse. Só que com ele era mais complicado.
A vendedora olhou- a espantada. Também não acreditava:- outra vez? O dia estava bom, tinha vendido mais do que o mês anterior e olha que não se estava nem na metade deste. Dia das mães, dos pais, sempre se vendia mais. E dia dos namorados, então? Todo mundo quer manter o que tem. E agora esta. Pensava na coragem da cliente. Ela e as amigas do trabalho tentaram ser o mais profissional possível. Uma mais antiga de loja, chegou a pedir para as colegas disfarçarem. É que não se via disso todos os dias. Aliás, nem em todos os anos de trabalho como balconista. Resolveu ser discreta.
Ela se aproximou, tirou o embrulho em papel de seda azul marinho e o estendeu à vendedora. Ela simpática perguntou se não havia servido, desembrulhando o pacote. Ela roxeou, a vendedora fingiu não ver. Ela de olhar caolho, viu o riso cínico entre as outras funcionárias. Disse apenas: - ele não gostou da cor. Em sua gentileza a vendedora tentou argumentar o quão é difícil dar presentes e em se tratando de roupa íntima pior.
Lembrou de ter dito à vendedora, no dia anterior, que a peça tinha que ter um tom mais para vermelho- terra, mas a balconista, boa de lábia, a convenceu do contrário. Disse que se fosse para seu namorado usar um desses um dia, preferiria um no laranja acobreado.
Neste momento, o buchicho entre os presentes na loja aumentou. Ela constrangida, continuava a compra, pensando em satisfazer os fetiches do namorado. Nem sempre concordava com algumas manias, taras que ele propunha. Mas, entre tantas, essa era a que menos incomodava. Sabia, entre paredes, tudo se pode.
Indecisa e sendo a opinião de uma especialista em peças íntimas, comprou o alaranjado. Já tinha feito isso umas duas vezes durante esse namoro, podia ter seguido a regra do não se mexe em time que está ganhando. Resolveu levar o mesmo baby-doll, na cor exata ao seu tom de pele. Agora, já não importava se ele gostaria, ou não. Este era seu.
A cena da comemoração frustrada desceu dos olhos para a narina e ela suspirou. Tudo arrumado, cama com flores, vinho gelado, todo clichê de uma noite romântica. Deu em nada. Mandou embrulhar.
A vendedora trouxe o embrulho em uma nova sacola, o papel ainda era azul marinho, pensou em dizer que a cor do papel, já não era importante. Perguntava-se porque as cores classificavam-se em bom para homens, bom para mulheres. Deixou. A atendente, querendo quebrar o constrangimento, disse que se não servisse ele poderia pessoalmente escolher outra peça. Sentiu, então, as faces como duas grandes caldeiras. As meninas da loja, não se contiveram. A vendedora ficou paralisada, quando se deu conta do que fizera.
Depois no caminho para casa, continuava a ouvir a risada das balconistas ao responder que o namorado não havia gostado do presente, por não combinar com o batom e o par de pulseiras, que ele comprara para usar só para ela. Ah..., intimidade rasgada e escancarada por um consumismo letal.

5 comentários:

Tiago Araújo disse...

Particularmente, quando eu uso babydoll, prefiro vermelho sangue e nunca uso com pulseira, "só com" um anel, pra dar um cosquinha!!!

Laura Fuentes disse...

Arrasou. Uma história de fetiche bem contada. Tomara que a moça tenha usufruído do resultado comme il fault...

Lucifer disse...

Uma ótima história.
Mostra o quanto a mulher se preocupa em querer agradar ao companheiro.
Agora só está faltando uma história invertendo-se os papéis. Seria interessante ver o outro lado da história.
Fica a pergunta....será que o homem faria tantas concessões assim como a sua companheira o faz? O seria um "Venha ao nosso reino e nada"?
Para os mais engraçadinhos de plantão, eu não sou gay não. rsrsrs. Mas eu acho que o homem tem todo o dever de dar prazer para sua companheira assim como ela se preocupa com ele.

Denize Muller disse...

Qualquer dia Lucifer, qualquer dia...."Seja feita a vossa vontade" Brigaduuuuuuuu pelo comentário

Lucifer disse...

De nada Denize. O prazer é todo meu por ter conhecido esse blog e seu conto. Procurarei frequentar mais aqui.

A propósito, antes que eu receba um puxão de orelha de meu querido professor, eu esqueci de acrescentar uma pequena coisa em meu comentário.
Omeu nome é Marcos Roberto e estou fazendo o curso de Criação Literária "Primeiras Linhas" sob coordenação do Tiago Araujo na Oficina Cultural Luiz Gonzaga.
Aí, mestre, desculpe o escorregão.